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[terça-feira, 14 de outubro de 2008] POR FELIPE TERAM Não por ser um personagem assustador, perigoso ou intolerante aos meus limites. Nem pelos meus companheiros de equipe – aliás, meu consolo muitas vezes foi a certeza de que a equipe faria de tudo por um cinema honesto e singelo. Sentia mesmo era uma hesitação em saber que teria de “atuar aos detalhes”. Talhar o personagem para ornar o charme do cinema é um exercício tão fantástico quanto trabalhoso. Sempre o apreciei e “tietei”. Porém para mim tratava-se de algo bem diferente da explosão dos processos criativos do teatro do qual pude gozar para me formar ator. Teria de superar as técnicas que aprendi em nome de um novo aprendizado espontâneo, seguido de outra lógica e de outra base de ação. No cinema o ator gasta uma concentração disforme para “ser”, contrabalanceando o medo de parecer “estar”. Graças a Stanislaviski, minha oração durante as gravações foi: encontrar o André, sim. Sair por aí o procurando desesperadamente, não. Estava eu aberto e disposto para “recebê-lo” (técnicas espíritas não foram usadas durante o processo) e André “surgiu” com seus medos e aflições, me cumprimentou com seu trejeito inseguro e fez-se entender por meio do seu silêncio tacanho. Aí estava! Esse era o André que eu esperava. Conhecia seus gostos, me aproximava de sua rotina, comparava suas angustias e eu – literalmente – o esperava como alguém que espera o sono de siesta após o almoço. Através dessa naturalidade, que também foi matéria-prima de meus exercícios, tentei conceber a interpretação de André. Era necessário pedir licença para conhecê-lo e metrificar suas ações de acordo com o sentido total do filme.
Marcações estudadas, planos incorporados, cenas editadas e ainda parece que o filme não terminou. Eis uma verdade! De fato, a magia do cinema só se dá quando todo o rito que o cerca (luzes apagadas, silêncio...) interage com seu mistério característico. Só assim o deslumbre é capaz de distrair a lembrança de um set de filmagem estafado e à pilha. Só assim é possível avaliar-se como ator. Só assim os créditos darão fim aos esforços. por Pedro Pipano 1 comentários |